Tanyka (lit. "mandíbula") é um gênero extinto de tetrápode basal anfíbio conhecido da Formação Pedra de Fogo, do Permiano Inferior (idade Kunguriana), no Brasil. O gênero contém uma única espécie, Tanyka amnicola, conhecida por diversos restos mandibulares. É um dos poucos tetrápodes basais gondwânicos que se sabe terem sobrevivido até o Permiano. A mandíbula inferior é fortemente torcida, com extensas áreas de dentes, permitindo provavelmente o processamento de plantas aquáticas ou pequenos invertebrados. Antes da descoberta de Tanyka, a visão predominante sobre a evolução dos tetrápodes era de que os grupos basais primitivos foram repentinamente substituídos por anfíbios temnospondilos e amniotas após o colapso da floresta tropical no Carbonífero, no final da era Moscoviana (há cerca de 307 milhões de anos). Entretanto, o Tanyka e outros tetrápodes sobreviventes tardios do Permiano Inferior, como Gaiasia jennyae (descrita em 2024), demonstram que a substituição dos tetrápodes basais por temnospondilos e amniotas posteriores foi mais complexa do que as hipóteses anteriores sugeriam.

Descoberta O material fóssil do Tanyka foi descoberto em afloramentos da Formação Pedra de Fogo, próximos ao município de Pastos Bons, no estado do Maranhão, no Brasil. Os espécimes atribuídos a esse táxon incluem várias mandíbulas com diferentes níveis de preservação, atualmente guardadas no Museu de Arqueologia e Paleontologia da Universidade Federal do Piauí. Entre elas, as mais completas estão catalogadas sob os números MAP-PV 662 e MAP-PV 097. Parte desse material foi inicialmente identificada por Juan Carlos Cisneros, em 2015, como pertencente a um temnospôndilo rinossuquídeo indeterminado. No entanto, após uma nova análise que incluiu fósseis adicionais e mais completos, os pesquisadores perceberam que os exemplares pertenciam, na verdade, a um táxon distinto, com características que o excluem de todos os grupos conhecidos de temnospôndilos. Em 2026, Jason D. Pardo e colaboradores descreveram Tanyka amnicola como um novo gênero e espécie de tetrápode primitivo com base nesses fósseis, estabelecendo o exemplar MAP-PV 662 como o holótipo da espécie. O nome do gênero, Tanyka, deriva da palavra guarani tañykã, que significa “mandíbula” ou “queixo”. Já o nome específico, amnicola, vem do latim e significa “aquele que vive no rio ou próximo a ele”. Esse nome faz referência tanto ao local onde o holótipo foi encontrado, um leito de rio, quanto ao provável modo de vida aquático desse animal.

Classificação e evolução

As características da mandíbula de Tanyka amnicola indicam que esse animal está mais próximo dos tetrápodes basais (linhagens ancestrais que antecedem os tetrápodes modernos) do que dos temnospôndilos ou dos amniotas. A série de ossos coronóides largos e cobertos por dentículos observada em Tanyka também é comum em anfíbios do grupo baphetídeo. Da mesma forma, a mandíbula dos baphetídeos às vezes apresenta uma área de crista pouco desenvolvida. Entretanto, a ornamentação muito marcada na aba óssea observada em Tanyka, formada por esculturas e relevos pronunciados, não é conhecida em nenhum outro tetrápode primitivo. Para testar as relações evolutivas de Tanyka, Jason D. Pardo e colaboradores incluíram o animal, em 2026, em duas matrizes filogenéticas já utilizadas em estudos sobre tetrápodes antigos. Uma delas foi elaborada por Per E. Ahlberg e Jennifer A. Clack em 2020, baseada principalmente em características da mandíbula inferior e com menor amostragem de tetrápodes do grupo coroa. A outra foi desenvolvida por Claudia Marsicano e colaboradores em 2024, contendo um conjunto mais amplo de características anatômicas e uma amostragem mais abrangente de tetrápodes do grupo coroa. Ambas as análises posicionaram Tanyka de forma clara dentro do grupo de base dos tetrápodes. A ordem exata de ramificação entre algumas dessas linhagens ancestrais variou entre as análises, mas Tanyka foi reconhecido como parte de um conjunto de táxons tradicionalmente considerados “baphetídeos”. Todos os outros membros desse grupo são conhecidos a partir de fósseis do Período Carbonífero, especialmente da idade Moscoviana, ou ainda mais antigos. Isso significa que Tanyka seria o baphetídeo mais recente já identificado e o único conhecido do período Permiano. Os resultados filogenéticos também indicam que Tanyka se separou de outras linhagens de tetrápodes antes do surgimento dos primeiros tetrápodes do grupo coroa, como Balanerpeton woodi, que viveu aproximadamente entre 346 e 330 milhões de anos atrás. Além disso, Tanyka representa uma linhagem claramente distinta de Gaiasia jennyae, outro tetrápode basal que sobreviveu por muito tempo e foi descoberto na Namíbia. Essa diferença mostra que os tetrápodes basais ainda apresentavam grande diversidade ecológica no começo do Permiano. Um cladograma resumindo a possível posição evolutiva de Tanyka em relação a outros tetrápodes basais é apresentado abaixo no estudo original.

Paleobiologia Devido ao formato peculiar e à articulação da mandíbula, além da dentição achatada, pesquisadores sugerem que o Tanyka amnicola utilizava suas mandíbulas cheias de pequenos dentículos para alimentar-se de pequenos invertebrados ou raspar plantas aquáticas, em vez de capturar presas grandes. Uma estratégia de alimentação semelhante pode ser observada na Siren lacertina, conhecida como “sereia-maior”, uma salamandra aquática atual que também possui dentes coronóides. Embora o Tanyka não seja o único tetrápode basal com uma estratégia alimentar incomum, por exemplo, Acherontiscus caledoniae pode ter se alimentado de pequenos invertebrados com conchas duras, enquanto Spathicephalus mirus e Sigournea multidentata foram interpretados como possíveis filtradores, Tanyka é o primeiro caso conhecido de herbivoria ou onivoria entre os tetrápodes basais. Esse fato sugere que, mesmo no início do Permiano, esses tetrápodes ancestrais ainda estavam explorando novos nichos ecológicos, enquanto competiam com amniotas e outros grupos de anfíbios.

Paleoecologia

O Tanyka é conhecido a partir de fósseis encontrados na Formação Pedra de Fogo, datada da idade Kunguriana, no início do Permiano (Cisuraliano). Evidências bioestratigráficas indicam que essa formação possui idade semelhante à da Formação Irati, no Brasil, e à da Floresta Petrificada de Chemnitz, na Alemanha, ambas datadas em cerca de 278 milhões de anos. O ambiente representado pela Formação Pedra de Fogo correspondia a um ecossistema quente e sazonalmente seco, mas que ainda possuía corpos d’água permanentes profundos o suficiente para abrigar grandes predadores aquáticos, como Prionosuchus plummeri e outros temnospôndilos. Esse sistema também abrigava uma fauna vertebrada bastante diversa. Entre os peixes identificados estão os gêneros Anisopleurodontis, Bythiacanthus, Glikmanius, Itapyrodus, Rubencanthus, Sphenacanthus e Taquaralodus. Entre os temnospôndilos aquáticos ou semi-aquáticos que provavelmente conviveram com o Tanyka nessa formação estão Prionosuchus plummeri, Procuhy nazariensis e Timonya anneae. O ecossistema também incluía tetrápodes terrestres mais derivados, como os captorrinídeos Captorhinikos, répteis primitivos como Karutia fortunata, e alguns sinapsídeos ainda não formalmente descritos. Curiosamente, o Tanyka não parecia ter preferência por um único tipo de habitat. Fósseis atribuídos a esse animal foram encontrados em localidades que representam áreas úmidas temporárias, além de ambientes lacustres e playas (planícies que formam lagos rasos temporários). Como ainda há poucos dados disponíveis, não se sabe se o Tanyka possuía adaptações fisiológicas ou estratégias de vida específicas que lhe permitiam sobreviver nesses ambientes diferentes, ou se essa capacidade também era comum a outros tetrápodes basais.

Referências