A Black Star Line (1919–1922) foi uma companhia de navegação incorporada por Marcus Garvey, organizador da Associação Universal para o Progresso Negro (sigla em inglês: UNIA), e por outros membros da UNIA. A empresa foi criada para facilitar o transporte de mercadorias e, posteriormente, de afro-americanos dentro da economia global africana. Seu nome foi inspirado na White Star Line, companhia cujo sucesso Garvey acreditava poder reproduzir. A Black Star Line tornou-se parte fundamental da contribuição de Garvey para o movimento de retorno à África [en], mas teve, em grande medida, pouco êxito, em parte devido à infiltração de agentes do FBI. Ela foi apenas uma entre diversas empresas criadas pela UNIA, como a Universal Printing House, a Negro Factories Corporation e o amplamente distribuído e bem-sucedido jornal semanal Negro World [en]. A Black Star Line e sua sucessora, a Black Cross Navigation and Trading Company, operaram entre 1919 e meados da década de 1920. Atualmente, permanece como um importante símbolo para os seguidores de Garvey e para os defensores do pan-africanismo. Não deve ser confundida com a posterior Black Star Line, a companhia estatal de navegação de Gana.
História
A Black Star Line foi incorporada como uma corporação do estado de Delaware em 27 de junho de 1919. Com uma capitalização máxima de 500.000 dólares, as ações da BSL eram vendidas em convenções da UNIA por cinco dólares cada. Os primeiros diretores da Black Star Line foram Marcus Garvey, Edgar M. Grey, Richard E. Warner, George Tobias, Jeremiah Certain, Henrietta Vinton Davis [en] e Janie Jenkins. Os cargos executivos da corporação eram ocupados por: Presidente Marcus Garvey; Primeiro Vice-Presidente Jeremiah Certain; Segunda Vice-Presidente Henrietta Vinton Davis; Tesoureiro George Tobias; Secretário Richard E. Warner; Secretário Assistente Edgar M. Grey e Tesoureira Assistente Janie Jenkins. Seis meses após a incorporação, o conselho de administração votou pelo aumento da capitalização de mercado da Black Star Line para 10 milhões de dólares (equivalente a $181 milhões em 2024). A Black Star Line surpreendeu seus críticos quando, apenas três meses após sua criação, adquiriu o primeiro de quatro navios, o Yarmouth [en], com a intenção de rebatizá-lo como Frederick Douglass. O Yarmouth havia sido um navio carvoeiro durante a Primeira Guerra Mundial e encontrava-se em más condições quando foi comprado pela empresa. Após ser reformado, o Yarmouth navegou por três anos entre os Estados Unidos e as Índias Ocidentais como o primeiro navio da Black Star Line, com tripulação totalmente negra e um capitão negro. Posteriormente, Joshua Cockburn, capitão do Yarmouth, foi acusado de receber uma comissão ilegal sobre o preço de compra do navio.
O Yarmouth não foi o único navio adquirido pela BSL em más condições e vendido com propaganda exagerada. Garvey gastou outros 200.000 dólares na compra de mais embarcações (equivalente a $3,1 milhões em 2024). Um deles, o Shady Side [en], realizou um “cruzeiro para lugar nenhum” no rio Hudson durante um verão e afundou no outono seguinte devido a um vazamento. Outro navio foi o iate a vapor Kanawha [en], que pertencera anteriormente a Henry Huttleston Rogers. Booker T. Washington havia sido um convidado de honra a bordo quando o navio era propriedade de seu amigo Rogers. No entanto, Rogers falecera em 1909, e o iate, antes bem conservado, também havia servido na Primeira Guerra Mundial. Após ser rebatizado como Antonio Maceo pela Black Star Line, em homenagem a Antonio Maceo, uma caldeira explodiu, causando a morte de um homem. Além de lidar com navios em mau estado e excessivamente valorizados, a Black Star Line enfrentou problemas de má administração e infiltração por agentes do Bureau of Investigation de J. Edgar Hoover (antecessor do FBI), incluindo o primeiro agente afro-americano contratado pelo órgão, James Wormley Jones [en], que se tornou próximo de Garvey, e outros agentes que – segundo o historiador Winston James – sabotaram a empresa introduzindo materiais estranhos no combustível e danificando motores. Em sua primeira viagem comercial, o Yarmouth transportou uma carga de uísque dos Estados Unidos para a Cuba (antes da Lei Seca) em tempo recorde, mas, por não possuir acordos de atracação em Havana, perdeu dinheiro permanecendo parado no porto enquanto os estivadores realizavam uma greve. Em outra viagem, um carregamento de cocos apodreceu no porão de um navio porque Garvey insistiu que as embarcações fizessem paradas cerimoniais em portos politicamente simbólicos.
Em 1919, J. Edgar Hoover e o Bureau of Investigation acusaram Marcus Garvey e outros três diretores de fraude postal. A acusação afirmou que um folheto da Black Star Line continha a imagem de um navio que a empresa não possuía. O navio retratado era o Orion, que no folheto aparecia com o nome de Phyllis Wheatley, em homenagem a Phillis Wheatley. A BSL estava tentando adquirir o navio naquele momento, mas ainda não era sua proprietária. O fato de o navio ainda não pertencer à empresa foi considerado fraude postal. Em 1922, Garvey e três outros dirigentes foram formalmente acusados pelo governo dos Estados Unidos de usar o correio para solicitar fraudulentamente a compra de ações da já falida companhia de navegação. No tribunal, Garvey admitiu que 600.000 dólares ($11.271.000 em 2024) haviam sido “jogados ao vento”. O júri condenou apenas Garvey, absolvendo os demais acusados, e ele foi sentenciado a cinco anos de prisão. Em 1927, o presidente Calvin Coolidge deportou Garvey de volta para a Jamaica. A Black Star Line foi suspensa por Garvey em fevereiro de 1922, após sua prisão por fraude postal. O navio Shady Side foi abandonado em bancos de lama em Fort Lee, Nova Jersey. Posteriormente, a empresa foi reconstituída como Black Cross Navigation and Trading Company, que adquiriu um novo navio, o SS General G W Goethals, em outubro de 1924. Ele foi então renomeado como SS Booker T. Washington. O navio realizou viagens para Cuba e Panamá em 1925, mas não está claro se chegou a retornar a Nova Iorque devido à falta de recursos financeiros.
Na cultura popular O cantor de reggae Fred Locks [en] reintroduziu a Black Star Line ao público jamaicano com seu sucesso de 1976 “Black Star Liner”, considerado uma das canções mais importantes do reggae da década de 1970, retratando Garvey como um profeta semelhante a Moisés: "Seven miles of Black Star Liners coming in the harbor [...] I can hear the elders saying. These are the days for which we've been praying ... Marcus Garvey told us that the Black Star Liners are coming one day for us". A banda de reggae Culture [en] lançou em 1977 o álbum Two Sevens Clash [en], que incluía a música “Black Starliner Must Come”. Uma canção reggae de 1978 chamada “Black Star Liner”, da banda The Regulars (mais tarde renomeada para Reggae Regular), continua a ser uma canção popular no YouTube. Além disso, a banda Black Slate [en], no seu álbum Amigo, gravou uma canção chamada “Freedom Time (Black Star Liner)”, com referências a Marcus Garvey e aos “sete quilômetros do Black Star Liner”. A Black Star Line também foi lembrada por cantores de blues como Hazel Meyers [en] e Rosa Henderson [en], pelo grupo musical Brand Nubian em seu álbum In God We Trust (1993), e por Ranking Dread [en] na faixa “Black Starlina” do álbum Kunta Kinte Roots. “Train to Zion”, de Linval Thompson [en] (compositor) e U Brown [en], continha os versos: "Train to Zion is coming / Don't want no one to miss it / It's the Black Star Liner / It's going to Zion..." Black Star Liner [en] era o nome de um grupo eletrônico britânico, que foi indicado ao Mercury Prize em 1999 pelo álbum Bengali Batam Youth Foundation. A música “Marcus Senior”, da banda Burning Spear, do álbum Marcus' Children [en], continha letras sobre a luta que Marcus Garvey enfrentou. O cantor e compositor espanhol Javier Ruibal [en] canta sobre o sonho dos escravos norte-americanos de voltar à África, em sua canção “Black Star Line”. Ruibal canta junto com Chico César e a canção foi lançada em seu álbum de 2018, “Paraisos Mejores”. Black Star [en] é o nome do grupo adotado por Mos Def e Talib Kweli para o seu trabalho como dupla. O álbum de 1998, Mos Def & Talib Kweli Are Black Star, foi uma referência a Garvey e à Black Star Line. Na série de romances de ficção científica futurista Xenowealth do autor caribenho-americano Tobias Buckell [en], a Black Starliner Corporation é uma empresa de transporte interestelar responsável por reassentar emigrantes marginalizados, principalmente negros, da Terra em vários planetas terraformados. O Festival de Cinema BlackStar [en], um festival de cinema da Filadélfia dedicado a filmes realizados por pessoas negras, pardas e indígenas de todo o mundo recebeu o nome da empresa de transporte marítimo. O Festival Black Star Line, fundado em 2022 pelo artista Chance the Rapper, foi inspirado na companhia marítima.
Legado A bandeira de Gana adotou uma estrela negra como homenagem à sua própria companhia nacional de navegação, também chamada Black Star Line.
Referências
Fontes The Broad Ax (13 de maio de 1922). «Col. Marcus Garvey , President of the Black Star Line Steam ship Company, Admitted on the Witness Stand in New York City That More Than $600,000 Has Been Blown to the Wind». The Broad Ax. Julius F. Taylor. ISSN 2163-7202. OCLC 10392922. Consultado em 27 de junho de 2019 Garvey, Marcus (1995). Hill, Robert Abraham, ed. The Marcus Garvey and Universal Negro Improvement Association Papers, Vol. IX: Africa for the Africans June 1921-December 1922. [S.l.]: University of California Press. ISBN 9780520916821 Grant, Colin (2009). Negro with a Hat: The Rise and Fall of Marcus Garvey. [S.l.]: Vintage. ISBN 9780099501459 Murdock, George W. (4 de abril de 1939). «Hudson River Steamboats. No.86-Shady Side». The Kingston Daily Freeman. Consultado em 27 de junho de 2019 Murillo-Chaverri, Carmmen (1999). «Vaivén de arraigos y desarraigos: Identidad afrocaribeña en Costa Rica 1870-1940» (PDF). Revista de Historia. 39. ISSN 1012-9790 Springer, Robert & Randall Cherry, John Cowley, David Evans (2006). Nobody Knows where the Blues Come from: Lyrics and History. [S.l.]: University Press of Mississippi. ISBN 9781578067978
Ligações externas People & Events: The Black Star Line People & Events: J. Edgar Hoover “The Collapse of the Only Thing in the Garvey Movement Which Was Original or Promising”: Du Bois on Garvey “The Black Star Line”: Singing a Song of Garveyism