O tubarão-de-rabo-manchado, marracho-de-rabo-manchado ou marracho-rabo-manchado (Carcharhinus sorrah) é uma espécie de tubarão da família dos carcarrinídeos (Carcharhinidae), onde ocorre nas águas tropicais do Oceano Índico e do sudoeste do Oceano Pacífico, desde a costa oriental da África até as Ilhas Cook. Habita águas costeiras rasas, geralmente a profundidades de cerca de 20 a 50 m, incluindo áreas associadas a recifes de coral. Apresenta corpo fusiforme, cabeça alongada com boca em forma de V e uma longa nadadeira caudal heterocerca, cuja porção superior termina em um lobo provido de uma prega cutânea livre. Os adultos atingem no máximo 170 cm de comprimento e cerca de 30 kg de massa corporal. A dieta desse tubarão consiste principalmente de pequenos peixes ósseos; com menor frequência, captura cefalópodes, crustáceos e peixes cartilaginosos. Entre os numerosos parasitas registrados nessa espécie destacam-se cestódeos, trematódeos e copépodes. Assim como os demais membros da família Carcharhinidae, é vivíparo, e após um período de gestação de aproximadamente dez meses, a fêmea dá à luz geralmente de um a seis filhotes, medindo cerca de 40 a 50 cm de comprimento. As principais ameaças à espécie são a poluição e a degradação dos habitats naturais, bem como a pesca comercial. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) a classifica como "quase ameaçada" (NT).
Taxonomia e filogenia
O tubarão-de-rabo-manchado foi descrito cientificamente em 1839 pelo zoólogo francês Achille Valenciennes sob o nome Carcharias sorrah. A descrição foi publicada na obra Systematische Beschreibung der Plagiostomen, do ictiólogo alemão Johannes Peter Müller e do médico Friedrich Gustav Jakob Henle, os quais são considerados por muitos taxonomistas os autores do nome do táxon. De data anterior (1822) existe o nome Squalus spallanzanii, atribuído a esta espécie. Seus autores, os naturalistas franceses François Péron e Charles-Alexandre Lesueur, utilizaram essa designação em uma ilustração, porém a descrição científica por eles elaborada não foi aceita pelos taxonomistas, e o nome Squalus spallanzanii passou a ser tratado como sinônimo. Posteriormente, diversos autores o transferiram para o gênero Carcharhinus. Não há informações disponíveis sobre o holótipo. O lectótipo é o exemplar RMNH 4294, enquanto os paralectótipos correspondem aos espécimes MNHN 0000-1131 e MNHN 0000-1132. Um destes consistia em um macho juvenil com 93,7 cm de comprimento, capturado em 1829 nas águas ao largo do norte de Madagascar e atualmente preservado no Museo Nacional de Historia Natural, em Montevidéu, Uruguai. Em um estudo filogenético dos carcarrinídeos baseado em caracteres morfológicos, publicado em 1982, o ictiólogo neozelandês Jack Garrick considerou o tubarão-luzidio (Carcharhinus falciformis), como o parente mais próximo do tubarão-de-rabo-manchado, propondo que ambas as espécies formariam um clado comum. Em 1988, o especialista em tubarões estadunidense Leonard Compagno, com base em análises fenéticas, incluiu o tubarão-de-rabo-manchado em um grupo composto pelas seguintes espécies: tubarão-de-bornéu (Carcharhinus borneensis), tubarão-de-bochecha-branca (Carcharhinus dussumieri), tubarão-baleeiro-de-riacho (Carcharhinus fitzroyensis), tubarão-cinzento-do-golfo (Carcharhinus hemiodon), tubarão-de-focinho-pontudo (Carcharhinus macloti), cação-azeiteiro (Carcharhinus porosus) e tubarão-marcado (Carcharhinus sealei). Uma análise filogenética fundamentada em dados aloenzimáticos, publicada por Gavin Naylor em 1992, indicou que a espécie constitui o táxon-irmão do clado formado pelo tubarão-cobre (Carcharhinus brachyurus) e o tubarão-tecelão (Carcharhinus brevipinna). Em 2012, Tillett e colaboradores identificaram o tubarão-baleeiro-de-riacho e o tubarão-estuarino (Carcharhinus amboinensis) como seus parentes vivos mais próximos.
Descrição
Este tubarão apresenta o corpo alongado e fusiforme típico do gênero Carcharhinus, com focinho longo, estreito e pontiagudo. Nas extremidades das pequenas narinas alongadas encontram-se diminutos lobos cutâneos triangulares. A boca, estreita e em forma de V, é provida de diversas fileiras de dentes afiados tanto na maxila quanto na mandíbula. Os dentes superiores são triangulares, inclinados em direção às extremidades das mandíbulas e possuem margens internas serrilhadas; os inferiores são menores e mais estreitos, com bordas lisas e cortantes, superfície interna rugosa e base relativamente larga. Quando um dente é perdido, é rapidamente substituído por outro proveniente da fileira subsequente. Os olhos são grandes e possuem pregas semilunares da conjuntiva, que protegem a membrana nictitante. Acima deles localizam-se pequenos espiráculos ovais. Esta espécie apresenta fendas branquiais pequenas e estreitas, com as extremidades voltadas para trás. A primeira nadadeira dorsal é larga e relativamente baixa, com formato de foice levemente recurvada para trás. Sua ponta posterior é longa e livre. A base dessa nadadeira situa-se posteriormente às margens traseiras das nadadeiras peitorais. A segunda nadadeira dorsal, fortemente projetada para trás, possui formato romboidal e base estreita, estando posicionada ligeiramente atrás da margem anterior da nadadeira anal. Entre as duas nadadeiras dorsais existe uma crista interdorsal. As nadadeiras peitorais são simétricas, curtas e relativamente largas, com formato triangular e margem distal reta. As nadadeiras pélvicas são menores que a nadadeira anal. Nos machos, parte das nadadeiras pélvicas é modificada em órgãos copulatórios denominados pterigopódios. A nadadeira anal apresenta formato característico de foice fortemente recurvada, com extremidade arredondada e um longo lobo distal livre e pontiagudo. Na extremidade da cauda encontra-se uma grande e larga nadadeira caudal heterocerca. Seu lobo inferior é várias vezes mais curto que o superior, cuja extremidade apresenta uma prega cutânea ampla e alongada, precedida por uma estreita incisura semilunar. A pele é revestida por escamas placoides romboidais e brilhantes, conhecidas como dentículos dérmicos. A região dorsal do corpo possui coloração escura, por vezes cinza-grafite ou castanha. A face ventral, os flancos e as nadadeiras (com exceção da primeira nadadeira dorsal) são mais claros, de tonalidade prateada ou branca. Manchas negras estão presentes nas extremidades da segunda nadadeira dorsal, das nadadeiras peitorais e do lobo inferior da nadadeira caudal. As fêmeas são geralmente ligeiramente maiores que os machos. A espécie atinge normalmente entre 150 e 160 cm de comprimento total, podendo alcançar até 170 cm, com massa corporal variando de 28 a 32 kg.
Distribuição e habitat O tubarão-de-rabo-manchado habita as águas tropicais do Oceano Índico e do sudoeste do Oceano Pacífico. Na porção ocidental de sua distribuição, ocorre ao longo da costa oriental da África, desde o norte da África do Sul, ao sul, até o Djibuti, ao norte, incluindo o Mar Vermelho, o Golfo de Aden, o Golfo Pérsico, o Golfo de Omã, bem como as águas ao redor de Madagascar, da Ilha de Socotra e do Arquipélago de Chagos. Também está presente nas Comores, Seychelles, Mascarenhas e Ilhas Amirantes. Na parte setentrional de sua área de ocorrência, habita os litorais do Irã, Paquistão e Índia (de Mumbai a Calcutá), além do Mar Arábico, da Baía de Bengala e das águas que circundam Laquedivas, Maldivas, Ilhas Andamão, Ilhas Nicobar e Sri Lanka. No setor oriental do Oceano Índico, encontra-se no Mar de Andamão, Mar da China Meridional, Mar da China Oriental, na porção meridional do Mar Amarelo e nos mares indonésios de Celebes, Banda, Arafura, Java, Flores, Timor, Seram e Sulu. Ao largo da Austrália, ocorre ao longo de toda a costa setentrional, desde Perth, no oeste, até Brisbane, no leste. No Oceano Pacífico, distribui-se pelas águas que banham Vanuatu, Palau, Ilhas Salomão, Fiji, Ilhas Gilbert, Ilhas Ellice, Ilhas Cook, Ilhas Marshall, os Estados Federados da Micronésia, a Nova Caledônia, além do Mar de Coral e do Mar das Filipinas. Comparações de marcadores genéticos neutros (região controle do DNA mitocondrial e microssatélites) demonstraram a existência de diferenciação genética entre as populações que habitam as águas do norte da Austrália e da Indonésia. Assim como outras espécies do gênero Carcharhinus, prefere águas costeiras rasas sobre plataformas continentais, ocorrendo até 140 m de profundidade, embora seja mais frequentemente encontrado entre 20 e 50 m. É observado com frequência nas proximidades das bordas externas de recifes de coral e em áreas de fundo arenoso. Geralmente ocupa a coluna d'água ou regiões próximas à superfície, sendo menos comum junto ao fundo. O tubarão é encontrado normalmente a até 50 km da costa, embora exemplares isolados tenham sido registrados em mar aberto a mais de 1.100 km da terra mais próxima.
Ecologia e comportamento
Alimentação
A dieta do tubarão-de-rabo-manchado é composta principalmente por pequenos peixes ósseos, incluindo representantes das famílias Scombridae (entre eles o bonito-listrado, Katsuwonus pelamis), Carangidae, Exocoetidae, Clupeidae e Nemipteridae. Alimenta-se também de cefalópodes, crustáceos (especialmente camarões e caranguejos) e, ocasionalmente, de pequenos peixes cartilaginosos como raias, incluindo o ratão-comum (Dasyatis pastinaca), Dasyatis zugei e a raia-borboleta-lisa (Gymnura micrura). Os indivíduos juvenis consomem predominantemente camarões do gênero Squilla e lulas. Entre os parasitas registrados nesse tubarão encontram-se os cestódeos Cathetocephalus australis, Callitetrarhynchus gracilis, Discocephalum pileatus, Mixonybelinia edwinlintoni e Otobothrium carcharidis; os copépodes Kroyeria elongata, Kroyeria spatulata, Pandarus carcharini, Pandarus niger e Perissopus dentatus; bem como o trematódeo Staphylorchis cymatodes. Essa espécie pode ocasionalmente tornar-se presa de tubarões de maior porte, particularmente do tubarão-da-barreira-de-coral (Carcharhinus tilstoni).
Reprodução Assim como os demais membros de sua família, o tubarão-de-rabo-manchado é vivíparo. Ao largo do norte da Austrália, os machos atingem a maturidade sexual com cerca de 90 cm de comprimento total, enquanto as fêmeas tornam-se sexualmente maduras por volta dos 95 cm. Nas águas da Indonésia, ambos os sexos alcançam a maturidade reprodutiva quando medem entre 110 e 115 cm de comprimento. Na costa da Índia, a cópula ocorre entre maio e junho, enquanto no Golfo de Carpentária ocorre de junho a julho. Durante esse período, os machos sexualmente ativos tentam copular de forma persistente, frequentemente exibindo comportamento agressivo e mordendo as fêmeas na região da nadadeira dorsal. Esse padrão comportamental é típico dos carcarrinídeos. A cópula é realizada por meio dos pterigopódios, órgãos copulatórios derivados das porções distais das nadadeiras pélvicas dos machos. A gestação dura aproximadamente dez meses. Durante o desenvolvimento embrionário, os embriões utilizam inicialmente as reservas nutritivas contidas no saco vitelino. Posteriormente, este se conecta à parede uterina, formando uma estrutura denominada placenta vitelínica, por meio da qual os nutrientes passam a ser fornecidos diretamente pelo organismo materno. Dependendo da região geográfica, os filhotes nascem entre março e abril (no norte do Oceano Índico) ou entre abril e maio (nas águas da Austrália e da Indonésia). As fêmeas dão à luz de um a seis filhotes, ocasionalmente até oito, medindo aproximadamente 40 a 55 cm de comprimento ao nascer. O tamanho da ninhada está diretamente relacionado ao porte da mãe: quanto maior a fêmea, maior tende a ser o número de filhotes produzidos. Durante os primeiros anos de vida, os juvenis permanecem em águas costeiras rasas, que oferecem maior proteção do que a zona pelágica das águas mais profundas. Dessa forma, ficam menos expostos à predação por grandes predadores oceânicos. No primeiro ano de vida, os filhotes crescem cerca de 20 cm e podem duplicar sua massa corporal. As fêmeas reproduzem-se anualmente ou em intervalos de dois anos. A longevidade da espécie é geralmente de cerca de oito anos, embora alguns indivíduos possam atingir entre 9 e 14 anos de idade.
Interações com humanos
A espécie possui considerável importância econômica. A intensidade da pesca costeira do tubarão-de-rabo-manchado varia entre as diferentes regiões de sua distribuição. O tubarão é capturado principalmente por meio de redes de emalhe e espinhéis. Trata-se de uma das espécies de tubarão mais frequentemente desembarcadas no norte da Austrália, onde representa cerca de 20% das capturas de tubarões; entretanto, o número de indivíduos capturados vem diminuindo continuamente desde a década de 1980. No Golfo de Carpentária e nas águas da Indonésia, observou-se, desde 1991, um aumento da pesca ilegal, não declarada e não regulamentada. Suas nadadeiras possuem elevado valor comercial, assim como a carne, o óleo hepático e as mandíbulas. A carne é consumida fresca, seca ou salgada, enquanto as nadadeiras são exportadas para o Leste Asiático, onde constituem um ingrediente tradicional da sopa de barbatana de tubarão. O óleo extraído do fígado é utilizado pela indústria farmacêutica. As mandíbulas são particularmente valorizadas na Europa Ocidental e no Leste Asiático, onde são comercializadas como objetos decorativos. Não é considerado uma espécie perigosa para os seres humanos.
Conservação e ameaças Apesar da forte pressão exercida pela pesca, a principal ameaça a esta espécie é a poluição e a degradação de seus habitats naturais, especialmente das áreas costeiras rasas utilizadas como zonas de crescimento e desenvolvimento dos juvenis. Na costa da China, a contaminação proveniente das bacias hidrográficas que deságuam nos mares da China Oriental e da China Meridional (particularmente os rios Yangtzé e Xi Jiang) exerce impacto significativo sobre suas populações. O aumento da demanda por nadadeiras de tubarão também tem contribuído para a intensificação da pesca ilegal e não registrada, fenômeno que afeta igualmente o tubarão-de-rabo-manchado. Entretanto, permanece incerto se a redução observada em suas capturas decorre efetivamente da sobrepesca. A espécie é protegida por legislação específica nas águas de Omã, incluindo o Golfo de Omã, e também no Golfo Pérsico, devido à baixa abundância das populações locais. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica seu estado de conservação como "quase ameaçada" (NT).
Referências